Não espero ser um vento de mudança cultural nem acredito que sozinho consiga mudar alguma coisa. Não almejo a imortalidade nem tocar sequer a genialidade de outros, pretendo sim alertar outros que, como eu, estão fartos de ver a cultura portuguesa na lama, inundada e ridicularizada por influências provenientes do estrangeiro, acabando por eliminar cada vez mais os nossos traços culturais.
Desde sempre que Portugal se habituou a importar conceitos, ideias e revoluções culturais, ignorando por completo tudo de brilhante que se vai fazendo por este país. Desde sempre que nos habituámos a apenas dar a devida importância a agentes culturais nacionais quando estes já estão em final de carreira ou mesmo desaparecidos, valorizando o seu espólio tardiamente em detrimento de valores importados ou jogos de influência e de interesses.
Habituámo-nos a ignorar o nosso património – quantos lisboetas conhecem de facto Lisboa para além dos grandes pólos comerciais? – por culpa própria e daqueles que colocamos em posição de governação. Os apoios são quase impossíveis de obter, a menos que tenhamos padrinhos nos respectivos órgãos, e as iniciativas inovadoras são menosprezadas sendo, na maioria dos casos, financiada pelos empreendedores ou colocadas na gaveta quando tal não é possível. Mas também nos habituámos a culpabilizar apenas o Ministério da Cultura e outros agentes estatais, que fazemos nós para mudar algo? Porque procuramos apenas seguir as “regras” implementadas do sistema cultural nacional? É tempo de nós, os verdadeiros interessados na nossa cultura, os que vemos as dificuldades no dia-a-dia, que lutamos pela cultura em Portugal, façamos algo, é tempo de revolta, é tempo de mudar pensamentos e ideologias. E é a nossa geração que tem de se libertar das grilhetas da cultura instituídas em Portugal, somos nós que temos o poder de fazer algo, que temos o futuro nas nossas mãos, Portugal há-de ser nosso um dia e é agora que temos que iniciar a mudança, temos de gritar BASTA!
Criticar tudo e todos, lamentar o estado da cultura e a falta de apoios não chega, é preciso fazer algo, é preciso mudar, é preciso inovar e apresentar propostas concretas de alteração, não podemos continuar as lamurias, não podemos persistir em erros do passado e, acima de tudo, não podemos permitir que a Arte portuguesa continue nas mãos de quem não pertence por direito e exclusividade. A Arte não pode ser exclusiva de elites, nem académicas nem económicas, não pode continuar nas mãos de interesses e jogos de poder / influência, quantos de nós conseguem expor o seu trabalho livremente? Quantos de nós enviam incessantemente portfólios para galerias para ver depois exposições patentes de pessoas que sabemos estarem lá porque conhecem a pessoa x ou a pessoa y?
Quantas vezes me interrogo porque não vejo Arte disponível a todos, porque está a Arte restrita às classes altas, com poder económico? O mundo evoluiu e a Arte parou no tempo, não nas suas técnicas, estilos ou correntes, mas na forma como é encarada pela humanidade. A Arte permanece presa às elites tal qual como na Idade Média onde apenas os grandes senhores podiam encomendar obras aos artistas, e esta tendência manteve-se ao longo dos séculos escondida por detrás de uma pseudo-libertação artística. Na verdade a Arte não está ao alcance de todos, quem no nosso país se pode dar ao luxo de adquirir originais? Quem no nosso país se pode dar ao luxo de ir ao teatro? Ir aos museus? Monumentos? Galerias? Quem?
É isso que precisamos mudar, a cultura tem obrigatoriamente de evoluir para uma nova Era, uma Era Moderna, onde colocamos à disposição de todos o acesso à cultura. As massas deslocaram-se para os grandes pólos comerciais? É lá que temos de estar. O poder de compra da maioria não chega para aceder à cultura? Temos que a tornar acessível.
Sérgio Cerqueira
quinta-feira, 18 de junho de 2009
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